DIFERENÇA RACIAL: A IMPORTÂNCIA DO «QI»

Em primeiro lugar, é preciso perceber que quando falamos de diferenças de inteligência entre grupos étnicos referimo-nos, usualmente, a diferenças nos resultados de testes de QI. Os testes de QI são habitualmente utilizados pelos psicólogos para avaliarem aquilo a que chamamos de «inteligência» ou «capacidade mental». Os testes de QI estão longe de serem perfeitos, no entanto, eles são extremamente úteis, pois não só medem a inteligência, como nos permitem dizer muito acerca do sucesso de um indivíduo na vida real. O padrão normal de QI é 100, o que significa que a pontuação média que as pessoas obtêm, maioritariamente, nos testes de QI é de 100. Isso acontece, porque os resultados dos testes de QI têm a conhecida distribuição «normal». Numa distribuição normal, a maioria dos valores aglomeram-se em torno de uma média – poucos valores diferem significativamente dela. Ao aglomerarem-se criam uma espécie de curva em forma de sino, conhecida como IQ Bell Curve (Curvatura do sino).

A pontuação média normal de QI (68%) oscila entre: não muito inteligente (QI pelos 85 – «dull») até brilhante (QI cerca de 115 – «bright»). Um QI de 70 (14%) sugere-nos a existência de algum tipo de deficiência, enquanto que QI’s de 130 (2%) ou mais indicam indivíduos sobredotados. A média de QI nos Orientais é cerca de 106, nos Brancos por volta dos 100 e nos Negros flutua pelos 85. Este padrão é verificado por todo o mundo e ao longo de vários e diversificados estudos, sendo que os negros de África possuem, na generalidade, um QI mais baixo que os Negros que vivem na América ou na Europa.


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No entanto, é necessária uma palavra de precaução quanto ao uso da sigla «QI», em detrimento do uso da palavra «inteligência»; ora, «QI» é a sigla de «quociente de inteligência», mas isso não quer dizer que «um teste de QI meça exactamente aquilo a que chamamos de ‘inteligência’ nos contextos comuns, embora exista, como é óbvio, uma correlação entre ambos» (Singer, P., 2002): geralmente, as pessoas consideradas «inteligentes» pelos restantes membros do seu meio sociocultural obtêm resultados mais altos nos testes de QI, enquanto que as menos «inteligentes» possuem resultados menos bons. Mas isto não mostra o grau de correlação existente e uma vez que o conceito de inteligência é extremamente vago, não existe forma correcta de o fazer.

Alguns psicólogos procuraram ultrapassar esta dificuldade definindo a inteligência apenas como ‘aquilo que é medido pelos testes de inteligência’: «Por inteligência entendo ‘competência cognitiva geral’ ou g, que refere a razoável sobreposição existente entre diversos processos cognitivos. Esta sobreposição é uma das mais consistentes descobertas da investigação das diferenças individuais entre as faculdades cognitivas humanas durante o ultimo século» (Plomin, R., 2000). Esta noção de um tipo único, genérico e mensurável de inteligência é geralmente referida como «g» e foi identificado por um oficial do exército inglês que se tornou psicológico, Charles Spearman, num famoso artigo de investigação datado de 1904. Spearman analisou os resultados escolares obtidos em diferentes disciplinas por um grupo de crianças e verificou que esses mesmos resultados tinham uma relação positiva, e que tal correlação se devia a uma capacidade intelectual geral – o factor g. Entretanto, decorreram décadas de argumentação entre os psicólogos, no sentido de apurar a existência ou não de uma tal entidade individual. Os seus apoiantes salientaram que o QI é útil para a previsão do sucesso escolar, porque: i) é relativamente consistente ao longo de toda a vida e; ii) de uma maneira geral, as pessoas que obtêm resultados elevados num teste de determinada competência cognitiva têm resultados igualmente elevados em testes de outras competências. Mas embora a declaração de Spearman tivesse adquirido grande aceitação, que perdura, em certa medida, até hoje, só por volta de 1940, é que ficou claro, que sempre que um grupo de pessoas era submetido a um conjunto de testes mentais, as correlações entre os resultados eram totalmente positivas e o factor geral na capacidade humana era, realmente, um factor significativo e incontornável: «o factor g é responsável por cerca de metade da variabilidade na capacidade intelectual da população em geral» (Plomin, R., 2000).

Portanto, quando os psicólogos usam a sigla «QI» não se estão a referir à noção de «inteligência» que usamos no quotidiano, nem a substituí-la por outra, mas a introduzir um novo conceito de «inteligência», que é muito mais fácil de medir, mas que pode ter um significado muito diferente. A distinção entre inteligência e QI levou algumas pessoas a desprezar os resultados dos testes de QI, por acharem que em nada se relacionavam com a aptidão cognitiva; outros demasiado confiantes nas potencialidades do QI acabaram por lhe atribuir primazia sobre quaisquer outras aptidões. Na verdade, QI não é o mesmo que inteligência, porém, existe uma conexão racionável que nos permite recolher resultados significativos – daí a sua importância. Assim, para não gerar confusões e uma vez que a palavra «inteligência» significa muitas coisas diferentes, falar-se-á somente em diferenças de QI, em detrimento de diferenças de inteligência, pois os dados de que dispomos não permitem sustentar mais do que isso.

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CRENÇA NA CRENÇA DE QUE AS DIFERENÇAS RACIAIS NÃO TÊM IMPLICAÇÕES NA IGUALDADE

«Algumas pessoas acreditam que a crença nas diferenças raciais

é tão perniciosa,que mesmo quando é verdade,

deve ser esmagada.»

Daniel Dennett, 2006

Normalmente, quando se registam diferenças nos testes de QI, independentemente da justificação apresentada para as explicar, a existência dessas diferenças não é realmente posta em causa, mesmo por quem se opõe de forma drástica às perspectivas defendidas por Jensen, Eysenck ou Rusthon (Singer, P., 2002). Os testes são precisos, cientificamente controlados e os seus resultados são claros. Logo, o ponto mais polémico deste debate não reside na análise dos dados, mas na questão ‘a priori’ de se saber se esses estudos são realmente possíveis e legítimos. Afinal, o que é isso de fazer estudos com ‘raças’? Será que é possível e legítimo comparar raça e QI?

Apesar dos inúmeros estudos realizados, da evidência dos seus resultados e da sua aceitação no meio científico, existe uma quantidade razoável de investigadores que considera esses estudos fraudulentos e desprovidos de credibilidade. Segundo a óptica desses refutadores, não faz sentido e é totalmente impossível fazer estudos comparativos entre raça e QI, pois o próprio conceito de raça é produto de uma construção social, logo, não pode ser submetido a parâmetros de estudo científico. Num artigo intitulado Intelligence, Race and Genetics, da Yale University, publicado na revista American Psycologist (2005), vários investigadores (Sternberg, R. J., Grigorenko, E. L. e Kidd, K. K.) defendem que o conceito de raça é uma construção social e que os estudos acerca do relacionamento entre as raças podem servir extremidades sociais, mas nunca extremidades científicas: «Onde é que a raça se ajusta no teste de padrão genético? Realmente, não cabe em parte nenhuma. A raça é um conceito social construído, não biológico. Deriva do desejo de uma pessoa classificar. Os povos parecem ser naturais classificadores». Os autores do artigo vão ainda mais longe ao afirmarem que nenhum gene foi, até hoje, ligado de modo conclusivo à inteligência, por isso, qualquer tentativa de estabelecer uma ligação genética entre a raça e a inteligência é impraticável neste tempo, dado que a hereditariedade (conceito «empírico-genético») é inadequada para proporcionar tal ligação: «Um número de académicos reincidia ter estudado relacionamentos entre inteligência, a raça e a genética (por exemplo, Herrnstein & Murray, 1994; Rushton, 1995). A tese deste artigo é que estes estudos não estão radicados em construções científicas mas em crenças populares acerca delas. Há uma grande diferença entre estudar relacionamentos com base em construções científicas e estudar relacionamentos tendo por base crenças populares. O maior problema é quando se estuda o último mas se acredita que se está a estudar o primeiro» (Sternberg, R. J., Grigorenko, E. L. e Kidd, K. K., 2005).

Estes autores sustentam a crença de que a raça é um conceito cultural, portanto, os estudos entre as raças e as suas diferenças (QI) apenas podem acentuar a falta de idoneidade dos investigadores envolvidos. Isto significa que os estudos científicos realizados nesta área, ao longo dos últimos 150 anos por investigadores como Broca, Bouchard, Lynn, Jensen, Deary ou Rusthon, envolvendo desmesurados financiamentos, não passaram de um embuste. Mas então, e os resultados obtidos? O que fazer com eles? Será legítimo ignorar ou destruir anos de trabalho numa área tão complexa como esta, envolvendo respeitadas equipas de investigadores e colaboradores, só porque se ‘acredita que a raça não é um conceito biológico’ e que, em consequência, contrariamente às provas científicas, deixa de ‘ser possível existirem quaisquer diferenças no QI’ entre as raças’? Deveremos, por isso, descurar e declinar estes estudos?

Existem duas coisas a respeito desta crítica que é importante sublinhar: i) não é pelo facto de desaprovarmos ou não acreditarmos nestes estudos que eles deixam de existir ou de ter a sua validade científica ‘real’: por exemplo, existem dados clínicos claros sobre a diferente susceptibilidade a doenças de pessoas pertencentes a diferentes etnias, bem como a diferente reacção a medicamentos, embora esses resultados sejam considerados inaceitáveis por alguns investigadores e entidades que subsidiam a investigação – o que não os invalida; ii) não é transformando o conceito de raça num conceito unicamente cultural que a subsistência de ‘diferenças’ entre as diversas raças deixa de existir e que o problema do racismo se resolve. Os racistas não desaparecem apenas porque a raça se torna um conceito cultural (do mesmo modo que não se multiplicam apenas porque a raça é entendida como um conceito biológico): para um racista, as justificações ou as provas são totalmente arbitrárias, aquilo que realmente importa são as ‘crenças pessoais’ (de ‘foro íntimo’) que o conduzem a agir daquela forma. Deste modo, a abolição do termo raça como conceito biológico apenas permite classificar o racismo como um movimento ‘irracional’ e cientificamente ilegítimo, ao mesmo tempo que se abre a possibilidade aos racistas de justificarem os seus actos com ‘crenças culturais irracionais e injustificáveis’. Se a raça é um produto cultural e o homem tem tendência para ‘classificar’ os que pertencem a outras culturas, por serem ‘diferentes’ da sua, então os racistas são ‘classificadores revolucionários’: descriminam os que são exteriores à sua cultura por ‘razões e crenças estritamente culturais’ que edificam o seu próprio grupo. Assim, a discriminação racial é fruto do reconhecimento pessoal da ‘existência de diferenças entre as raças’, as quais levam à formação de crenças sólidas acerca dessa diferença.

Como referi e sublinho novamente, não é da competência deste trabalho avaliar ou optar por teorias, mas esclarecer que não há motivo para controvérsias exacerbadas quanto às origens das diferenças entre os seres humanos. Isto, porque os estudos científicos acerca das diferenças entre as raças não têm implicações perniciosas face ao ideal de igualdade, pelo contrário, ajudam-nos a compreender melhor a complexidade e diversidade do ser humano, bem como a promover condições sociais mais eficazes em função das suas precariedades. É necessário compreender que a aceitação da igualdade entre os diversos seres humanos relaciona-se com o conjunto de crenças que enformam o pensamento e a mentalidade de cada um. Logo, mesmo que a hipótese genética esteja correcta, i. e. que as diferenças de QI entre as raças se devam, realmente, a factores genéticos (Herrnstein & Murray; Rusthon & Ankey; Lynn, R., & Vanhanen, T,; Fryer, Jr. & Levitt, S. D.) as implicações não são tão drásticas, nem tão reconfortantes para os racistas genuínos, como muitas vezes se pensa. Existem, segundo a minha óptica, três razões que me parecem ser suficientes para defender esta teoria:

(i) qualquer que seja a origem das diferenças entre as raças, o condicionamento cultural pode atenuar ou acentuar essas diferenças: a hipótese genética não implica que devamos reduzir os nossos esforços para vencer outras causas de desigualdade entre as pessoas (ex: habitação precária; acesso à escolaridade). Independentemente do grupo racial em que estão inseridas, as pessoas não devem ser impedidas pelo seu ambiente de fazer o melhor possível, pelo contrário, talvez até devêssemos empenhar mais esforços no auxílio dos que partem de uma posição desvantajosa, no sentido de atingirmos um resultado mais igualitário;

(ii) as pessoas devem ser avaliadas enquanto indivíduos, não podemos simplesmente agrupá-las e a partir daí retirar as conclusões: o facto de um QI médio de um grupo racial ser mais elevado que outro isso não permite a ninguém dizer que todos os membros do grupo com QI mais elevado têm um QI superior ao de todos os membros do grupo de QI menor – isto é claramente uma falsidade relativamente a qualquer grupo racial – nem que um determinado indivíduo do grupo com QI mais elevado tem um QI superior ao de um determinado indivíduo do grupo de QI inferior – em muitos casos, isto seria falso. Estes quocientes são apenas – como já referi – médias, que nada dizem acerca do indivíduo ‘em si’. Logo, qualquer que seja a causa das diferenças entre o QI médio, não há qualquer justificação para a segregação racial em qualquer campo social: os membros de diferentes grupos raciais devem ser tratados como indivíduos.

(iii) o princípio da igualdade não se baseia em qualquer igualdade real partilhada por todas as pessoas: defendo, tal como já foi postulado, que a única base defensável para o princípio da igualdade é a consideração de interesses, sendo que os interesses humanos mais importantes não são afectados por essas diferenças de inteligência, como por exemplo: o interesse em evitar a dor, em desenvolver as suas próprias capacidades, em satisfazer as necessidades básicas de alimentação, de abrigo, de desfrutar de relação pessoais, de ser livre, de construir os seus próprios projectos sem interferências, etc. (Singer, P., 2008).

Deste modo, o estatuto de igualdade não está dependente da inteligência. Ainda que grupos raciais obtenham diferentes resultados médios de QI, isso não serve de base para negar o princípio moral de que todos os seres humanos são iguais, i. e. de que todos têm os mesmos direitos e oportunidades. Os racistas que defendem o contrário arriscam-se a ter que se resignar perante o primeiro génio que encontrem. Tal como escreveu Thomas Jefferson numa carta em resposta a Henri Gregoire e à sua tentativa de refutar a perspectiva então comum de que os Africanos eram desprovidos de inteligência: «Pode ter a certeza de que não há pessoa que deseje mais sinceramente que eu, ver uma refutação total das dúvidas que eu próprio acalentei e exprimi quanto ao grau de compreensão que lhes foi atribuído pela natureza, nem ninguém deseja mais sinceramente descobrir que eles estão em pé de igualdade connosco (…) mas, qualquer que seja o seu grau de talento, não constitui medida dos seus direitos. Lá por o Sir Isaac Newton ser superior em compreensão aos outros, não foi, por isso, senhor da propriedade ou pessoa de outros». (Jefferson, T., 1809). Qualquer que seja o nível de QI de um indivíduo, ele apenas poderá ser útil ao mesmo, pois as diferenças de QI não são utilizadas como medida de estabelecimento de deveres e direitos para o universo populacional: todos os cidadãos têm os mesmos direitos, independentemente do sexo, do QI, da tonalidade de pele, etc.

Assim, perante a questão de se saber se é ou não legítimo continuar a comparar a Raça e o QI, a resposta é: evidentemente, uma vez que: i) os testes de QI desempenham um papel importante na nossa sociedade: o QI de uma pessoa é um factor que mede as perspectivas de cada um para melhorar o seu estatuto profissional, rendimento ou classe social; ii) os testes de QI prevêem o sucesso académico e profissional de igual forma para os Brancos, os Negros e os Orientais, permitindo-nos «classificar» as raças e estabelecer um padrão: em média, os Orientais obtêm os resultados mais altos, os Negros os mais baixos, enquanto os Brancos se situam no meio, mas mais próximos dos Orientais; iii) as mesmas diferenças raciais aparecem tanto em testes que foram feitos para serem culturalmente isentos, como nos testes de QI comuns: «Na realidade, os Negros até obtêm resultados ligeiramente mais altos nos testes de QI comuns, do que naqueles que são ‘culturalmente isentos’ – este facto está em oposição com a teoria cultural» (Rusthon, J. P., 2000).

Neste sentido, o problema em causa é o seguinte: se existirem realmente factores genéticos nas diferenças raciais de QI, como nos indica Jensen, Herrnstein e Murray’s ou Rusthon, haverá igualmente factores genéticos nas diferenças de estatuto profissional, rendimentos e classe social. Logo, se estamos interessados na igualdade e na defesa da dignidade humana não poderemos ignorar o QI, nem os estudos a ele associados.

CONTROVÉRSIA ACTUAL ENTRE RAÇA E «QI»: PODEM OS GENES DIZER-NOS ALGUMA COISA?

«Toda a nossa política social está baseada no facto da inteligência deles [africanos]

ser a mesma que a nossa. Mas todas as experiências dizem que não é bem assim (…)

Quem tenha que lidar com empregados negros sabe que isto não é verdade.

James Watson, 2007

Em 14 de Outubro de 2007, o biólogo molecular norte-americano de 79 anos, James Watson, vencedor do prémio Nobel da Medicina em 1962, por ser um dos descobridores da estrutura molecular do ADN em 1953 e muito famoso no meio académico pelas suas opiniões polémicas (as quais lhe valeram o apelido de ‘Honest Jim’) deu uma entrevista à revista do Jornal londrino Sunday Times, afirmando-se «pessimista» sobre o futuro da África, pois as políticas sociais para o continente eram baseadas no facto de a inteligência dos negros ser igual à dos brancos, apesar das experiências nos dizerem que não é bem assim. Em consequência destas declarações, centenas de cientistas oriundos de várias partes do mundo escreveram artigos ou manifestaram-se publicamente a respeito das opiniões de Watson, a maioria contra elas; o Museu de Ciências de Londres e a Universidade de Edimburgo cancelaram as conferências que ele iria dar naquela mesma semana e o laboratório de Cold Spring Harbor demitiu-o – embora Watson já tivesse difundido posições semelhantes no seu livro Avoid Boring People (Evite Pessoas Chatas), lançado em Setembro do ano de 2007.

Acusado de racista, extremista e colocado ao lado da figura de Hitler, Watson não parece ter recebido um tratamento muito diferente daquele que Jensen e Eysenck sofreram na década de 60 ao afirmarem que os afro-americanos obtinham resultados inferiores nos testes de inteligência, e que tal se devia, maioritariamente (80%), a factores genéticos. Isto demonstra que não houve qualquer mudança de mentalidade e que o público permanece ignorante quanto a este género de estudos e pouco preparado para lidar com situações nas quais se declara abertamente a diversidade racial – algo natural ao longo da história humana.

Mas muito antes de James Watson fazer os tão publicitados «comentários racistas», outros cientistas (Burt, C., Jensen, A. R., Eysenck, H. J., Herrnstein e Murray’s, Lynn e Vanhanen’s, Rusthon, J. P.) publicaram, ao longo dos últimos 150 anos, vários artigos a descrever a evidência das diferenças de QI entre grupos étnicos. Jensen (1969) em Harvard Educational Review, após a realização de vários testes de inteligência concluiu que: 1) os testes de QI medem a dimensão da capacidade geral (general-ability) que possui grande relevância social; 2) as diferenças individuais no QI têm uma elevada hereditariedade; 3) os programas educacionais mostram-se, geralmente, ineficazes na mudança do status da capacidade geral em indivíduos e grupos; 4) as diferenças de classe social no QI têm uma componente genética apreciável e, por fim, a mais controversa de todas; 5) a medida das diferenças entre grupos de Negros e Brancos no QI possuem, provavelmente algum componente genético. Mais tarde, num livro intitulado The G Factor (1998) Jensen mostra que g – factor geral da capacidade cognitiva – é: 1) o aspecto mais previsível nos testes de capacidade cognitiva; 2) está relacionado com a dimensão do cérebro, índices de hereditariedade e outros factores biológicos; e 3) mostra uma medida significativa de diferenças nos grupos raciais.

Herrnstein & Murray’s (1994) no livro The Bell Curve – Inteligence and Class Struture in American Life, que se tornou best-seller nos Estados Unidos, também reforçaram a evidência de um factor geral de leitura nas diferenças de QI, o que levou o pêndulo da influência da Genética (nature) Vs. Ambiente (nurture) a inclinar-se na direcção da ‘genética’, pelo menos aos olhos do grande público, acabando por gerar uma enorme controvérsia na psicologia, sociologia, educação e política, já para não mencionar os media. Charles Murray, cientista político norte-americano e co-autor deste polémico livro, embora mais novo que James Watson, sofreu o mesmo tipo de crítica ao defender, juntamente com Richard Herrnstein, psicólogo e professor de Harvard, que: i) o QI pode prever o sucesso académico e profissional: grupos com baixo QI predizem abuso infantil, crime e delinquência, má saúde, propensão para acidentes, geração de crianças fora do casamento, divórcios antes de decorridos cinco anos de casamento e mesmo o acto de fumar durante a gravidez; grupos com QI elevado possuem mais indivíduos de capacidades superiores: enquanto os Orientais (detentores de QI’s mais elevados) desenvolveram sociedades complexas na Ásia, e os brancos (com QI’s intermédios) produziram civilizações complexas na Europa, os africanos (com QI’s inferiores aos restantes) não foram capazes de o fazer; ii) os testes de QI apontam para a diferença entre as raças e demonstram a força da hereditariedade: em média, os Orientais obtêm melhores resultados de QI que os Brancos, os quais conquistam, geralmente, uma média melhor que os Negros: as diferenças entre Brancos e Negros em termos de QI surgem muito cedo, normalmente, a partir dos três anos de vida, e não são somente devidas a diferenças de classe social, mas sobretudo à hereditariedade.

Em geral, aquilo que Herrnstein & Murray (1994) procuraram demonstrar no seu livro é que «a inteligência de um indivíduo – geneticamente herdada, não menos de 40%, nem mais de 80%, dos seus pais – têm mais influência que o fundo socioeconómico sobre o qual se irão desenvolver as suas experiências futuras» (Manolakes, 1997). A parte da obra que mais captou a atenção pública foi a questão das diferenças de QI entre Africanos, Americanos e Caucasianos. O autores afirmaram que: 1) os asiático-americanos possuem um QI médio mais elevado que os americanos brancos, e que; 2) os americanos-brancos têm uma média de QI superior aos americanos negros. Foram também realizadas investigações sobre as diferenças raciais nos sub-componentes de inteligência. Hernerrstein & Murray relatam que: 1) a pontuação dos Asiáticos é normalmente, a mesma ou ligeiramente inferior à pontuação dos americanos brancos nos testes de QI verbais, mas mais elevada no QI ‘espacial-perceptual’; 2) os americanos negros tendem a obter pontuações mais elevadas que os brancos em sub-testes que envolvem aritmética e memória imediata, enquanto os brancos pontuam mais nos sub-testes de capacidade ‘espacial-perpectual’. Os autores reconhecem que as causas dessas diferenças podem ser ambientais, porém, as diferenças de QI parecem ser demasiado grandes para serem explicadas somente por influências ambientais: 1) fornecem muita pontuação; 2) estudos entre descendentes da mesma raça apresentam resultados análogos.

A partir do momento em que o QI começa a ser largamente entendido como geneticamente determinado, Herrnstein & Murray apresentaram sugestões acerca das implicações da inteligência (geneticamente herdada) na vida pública, política e social. Os autores expressam resistência às intervenções educacionais e ambientais, argumentando que o dinheiro gasto dessa forma é um autêntico desperdício, pois a América está-se a tornar uma sociedade de «castas cognitivas», sendo que a casta mais baixa inclui uma larga proporção de Africo-Americanos, Hence their statement that the ‘genetic capital’ of society is being eroded because the less intelligence, lower class is reproducing at a greater rate than high IQ classes.daí a afirmação de que o «capital genético» da sociedade está a ser afectado, pois os grupos de inteligência inferior (coincidentes com a classe mais baixa) reproduz-se numa taxa mais elevada que as classes de QI superior. Entenda-se que apesar destes estudos parecem apontar de uma forma radical para a divergência entre as raças, seria incorrecto da nossa parte caracterizar ou apelidar The Bell Curve como o livro da «Curva Racista» ou «Geneticista», apenas porque apresenta sugestões bem-intencionadas para melhorar a vida pública em função de resultados obtidos em testes de QI. Note-se que mesmo os depreciadores desta tese, tais como Wahlsten (1997) “It does not matter whether the field of human behavior genetics finally decides that the heritability of IQ in the United States is 25%, 40%, 50%, or 70%. Any such estimate will be utterly useless to anyone seeking better ways to improve the intelligence of the nation through health care and educareconhecem a importância do seu contributo para o debate psicológico actual.

Mas Herrnstein & Murray (1994) não são os únicos a defender a diferença racial no QI e a estabelecer relações com o desenvolvimento das nações. Na realidade, o livro The Bell Curve «apenas» veio reforçar os resultados já obtidos pelo Psicólogo Britânico Richard Lynn em 1991, num artigo intitulado The Evolution of race Differences in Intelligence (1991). A compilação dos dados obtida ao longo de 20 anos de investigação resultou na apresentação de um padrão global de resultados de QI: os orientais do Anel do Pacífico têm QI entre 100 a 111; os Brancos da Europa possuem um QI de 100 a 103 e; os Negros que vivem em África têm um QI de cerca de 70 – a média mais baixa até hoje registada – confira-se os resultados no quadro abaixo:

Fig. 3: Retirado da terceira edição não abreviada de Raça, Evolução e Comportamento (pág.15 a 16)

Estes resultados adquiriram enorme popularidade no livro IQ and the Wealth of Nation, publicado por Richard Lynn e Tatu Vanhanen (2002), no qual se discutem as correlações existentes entre as diferenças no quociente médio de inteligência nacional (QI) e a riqueza das nações. Lynn & Vanhanen (2002) explicaram a evidência desta relação ao mostrar que o QI é um dos factores que contribui de forma determinante para as diferenças de riqueza a nível nacional e para as diferenças nas taxas de crescimento económico. Segundo os autores, o gigantesco desenvolvimento nos países de primeira linha mundial (nomeadamente, a América do Norte e a Europa) deve-se, sobretudo, ao elevado nível de inteligência da sua população, que está, de acordo com Vanhanen, directamente relacionado com o facto de a maioria da população desses países ser de raça Caucasiana. Inversamente, o subdesenvolvimento de países como a África é consequência directa dos baixos QI´s da população, ocasionado pelo facto dos habitantes desses países serem predominantemente Negros. Lynn & Vanhanen (2002) chegam à conclusão, após a análise de 81 nações, que países cujo QI seja inferior a 90 correm um sério risco de desenvolvimento. Em justificação, apresentam a seguinte lista: «Hong Kong: 107; Coreia do Sul: 106; Japão: 105; Taiwan: 104; Holanda, Alemanha e Áustria: 102; Suécia: 101; Finlândia: 97; Índia: 85; Tanzânia: 72; Nigéria: 67; Serra Leone: 64; Etiópia: 63; Guiné Equatorial: 59».

As diferenças médias de QI registadas por Hernerrstein, Murray, Lynn e Vanhanen, foram progressivamente obtidas, de modo similar, por muitos outros estudiosos. Kenneth Owen, utilizando as Matrizes Progressivas de Raven (que medem o raciocínio e não a informação cultural específica) obteve um QI de 70 para africanos negros que frequentavam o sistema escolar sul-africano. Fred Zindy, um zimbabueano negro, através de um estudo semelhante realizado no seu país, com jovens dos 12 aos 14 anos, constatou os mesmos resultados, sendo interessante sublinhar que os estudantes Mestiços da África Do Sul têm um QI de 85, i. e. o mesmo que os Negros nos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Caraíbas. Os métodos genéticos (tais como os utilizados em testes de paternidade) indicam-nos que «estes Mestiços têm cerca de 25% de antepassados Brancos (25% White Ancestry) e os seus QI’s situam-se no ponto intermédio, ou seja, entre os Negros ‘puros’ (70) e os Brancos ‘puros’ (100).» (Rusthon, J., P., 2000).

Mais recentemente, Roland G. Fryer, Jr. e Steven D. Levitt (2007) num artigo intitulado Testing for Racial Differences in the Mental Ability of Young Children também chegam à conclusão que existem diferenças de QI notórias entre as diversas raças, as quais se mantêm ao longo do seu desenvolvimento social: «Em testes de inteligência, os Negros pontuam sistematicamente pior do que os Brancos. (…) Mesmo depois de ter em conta factores demográficos e sócio-económicos tais como salário parental, educação, profissão, ambiente familiar, peso de nascença, região e urbanicidade, permanece mesmo assim uma diferença racial substancial nos resultados dos testes entre Brancos e Negros. Os Asiáticos tendem a ter resultados médios sistematicamente mais elevados do que as outras raças» (Fryer & Levitt, 2007). Segundo este artigo, as acentuadas diferenças de QI averiguadas entre as raças evidenciam uma forte componente genética: qualquer que seja o ambiente em que se desenvolve, o QI enquadra-se sempre na mediania do grupo étnico ao qual pertence, daí a possibilidade de se «catalogar».

John Philippe Rusthon, Professor de Psicologia da Universidade de Westen Ortario, no Canadá, muito conhecido pelo seu trabalho de investigação na inteligência e nas diferenças raciais, apresenta conclusões idênticas, embora mais arrojadas, nas suas publicações. Rusthon verifica que quando pessoas de diferentes raças realizam testes de QI, tendem a registar-se diferenças nos resultados médios que obtêm. Segundo as suas investigações, essas diferenças encontram-se estreitamente relacionadas com a dimensão do cérebro (que é diferente entre as várias raças): «Os Orientais têm (em média) os maiores cérebros e os mais altos QI´s; os Negros os menores e os Brancos colocam-se numa posição intermédia. As diferenças no tamanho dos cérebros explicam as diferenças de QI, quer dentro dos grupos, quer entre grupos» (Rusthon, J. P. 2000). Estes resultados foram progressivamente divulgados em revistas científicas. Em Brain size and cognitive ability: Correlations with age, sex, social class, and race, da Revista Psyconomic Bulletin and Review, Rusthon, juntamente com Ankney (1996), utilizando a recente técnica da Imagem por Ressonância Magnética (‘Magnetic Resonance Imaging’ – MRI) para medir o volume do cérebro humano, encontraram ao longo de oito estudos (envolvendo mais de trezentos e oitenta e um adultos) uma correlação de 0,44 entre o QI e a dimensão do cérebro. É importante sublinhar que esta correlação obtida com a MRI é mais elevada do que a correlação anteriormente observada de 0,20, através da simples utilização de medidas do tamanho da cabeça (embora 0,20 seja significativo). Durante trinta e quatro estudos, Rusthon e Ankney apuraram que a correlação de 0,44 entre a dimensão do cérebro e o QI é tão alta como a correlação entre a classe social em que o indivíduo nasceu e o seu QI em adulto, o que demonstra, de modo evidente, que o tamanho do cérebro possui ligações com as realizações culturais – razão pela qual merece atenção redobrada.

A defesa da existência de uma correlação acentuada entre o QI e o tamanho do cérebro não é nova (recorde-se os estudos de Paul Broca em 1980) e tem vindo a ser largamente publicitada. Num artigo publicado na Revista Intelligence, Rusthon (1997), através da análise dos dados obtidos pela Collaborative Perinatal Project, que registam o tamanho do volume craniano em centímetros cúbicos e os resultados de QI de cerca de 50 mil crianças, desde o nascimento até aos sete anos (Broman, Nichols, Shaugnessy, e Kennedy, 1987), verificou que as diferenças raciais na medida do cérebro não só subsistem como são observadas desde o nascimento:

Fig. 4: Capacidades cognitivas em centímetros cúbicos. Dados desde o nascimento até aos 7 anos obtidos no U.S. Perinatal Project, dados de adultos do exército dos E.U.A. Em Rusthon, J. P., 1997, Intelligence, 25, pág. 15

Segundo o gráfico, desde o nascimento até aos sete anos de idade, as crianças Asiático-americanas registam volumes cranianos maiores que as crianças Brancas, as quais, por sua vez, registam volumes cranianos superiores aos das crianças Negras. Entre cada uma das raças, as crianças com maiores capacidades cranianas obtiveram pontuação mais elevada nos testes de QI. Pelos sete anos, os asiático-Amercianos pontuaram um QI de 110, as crianças Brancas pontuaram um QI de 108 e as crianças Negras registaram um QI de 90. Isto comprova que as diferenças raciais no tamanho do cérebro/QI não se relacionam com a estatura física dos indivíduos, dado que as crianças asiático-Americanas desde o nascimento até aos sete anos são, em geral, as mais baixas e de estrutura física mais leve, enquanto que as crianças Negras são as mais altas e pesadas.

A razão comummente apresentada pelos investigadores para o facto dos cérebros maiores serem ‘mais inteligentes’ é que, normalmente, eles contêm mais neurónios e conexões, o que os torna mais eficientes (Haier, 1995) – razão pela qual possuem maior probabilidade de sucesso. Quanto maior for a capacidade cerebral, maior é a flexibilidade do cérebro diante dos desafios e problemas que enfrenta. Neste sentido, Rusthon argumenta que os Orientais têm, em média, mais uma polegada cúbica de matéria cerebral do que os Brancos, que por sua vez têm, em média, mais cinco polegadas cúbicas do que os Negros: «Uma vez que uma polegada cúbica de matéria cerebral contêm milhões de células cerebrais e centenas de milhões de conexões, as diferenças de tamanho cerebral ajudam-nos a explicar as diferenças raciais no QI» (Rusthon, 2000).

Mas as «razões» apresentadas por Rusthon (e partilhadas por muitos outros investigadores), para a justificação da correlação entre o cérebro e os resultados de QI, não são universais e invariáveis. De facto, ainda não foram realmente identificados os genes responsáveis por este tipo de conexões, embora elas existam. Ian J. Deary, em A Inteligência (2001) analisou o modo como as diferenças de inteligência psicométrica se relacionam com o tamanho do cérebro, a sua actividade eléctrica, a eficiência do processamento visual e a rapidez das reacções simples, acabando por chegar à seguinte conclusão: «existe uma modesta correlação entre o tamanho do cérebro e a inteligência psicométrica. Pessoas com cérebros maiores obtêm tendencialmente resultados mais elevados nos testes mentais. Porém, ainda não conseguimos descobrir a razão dessa associação» (Deary, I., 2001).

Aquilo que efectivamente os estudos científicos nos dão certeza é que: i) diferentes dimensões de cérebros correspondem – sem variações relevantes – a diferentes raças: os orientais possuem, em média, os cérebros maiores, os Negros os mais pequenos e os Brancos situam-se no meio; ii) a dimensão do cérebro está intimamente relacionada com determinadas apetências, como o QI, sendo que os cérebros com maior dimensão atingem resultados de QI mais elevados: os Orientais possuem, em média, os QI’s mais altos, seguidos dos Brancos e, por último, dos Negros.

De acordo com um vasto conjunto de investigadores – entre eles, Bouchard, T. J., Loehlin, J. C., Plomin, R., Rusthon, J.P., Herrnstein, R. J., Lynn, R., etc. – as diferenças no QI entre os Negros, os Orientais e os Brancos possuem uma base hereditária determinante, a qual Rusthon denomina de base genética: «(…) a hereditariedade do QI é de cerca de 50% para os Negros, Orientais e outros grupos, como é o caso dos Brancos. Por isso, existe uma base genética para a inteligência em todas as raças» (Rusthon, 2000). A melhor prova e também a mais utilizada para explicar que as diferenças de QI têm, efectivamente, uma base genética ou hereditária são os estudos de hereditariedade, nomeadamente os estudos realizados entre gémeos (Bouchard, T. J.), os estudos de adopção (Loehlin, J. C.) e, sobretudo, os estudos de adopções trans-raciais entre crianças Orientais, crianças Negras e crianças Mestiças.

Um estudo trans-racial muito famoso entre crianças Orientais, Negras e Mestiças é o do Minnesota Tranracial Adpption Study de Sandra Scarr e Richard A. Weinberg (1983). Inicialmente, os autores pensavam que o seu estudo provaria que um bom lar (i. e. um ambiente familiar com excelentes condições económicas e culturais) poderia aumentar o QI de crianças Negras – à partida mais desfavorecidas. Mas, no final do estudo, os investigadores constataram que o padrão racial coincidia totalmente com aquele que era previsto pela teoria genética, pois à medida que as crianças se foram aproximando da idade adulta, os resultados de QI tenderam progressivamente a assemelhar-se da média de QI dos respectivos grupos raciais. Assim, embora aos sete anos as crianças Negras registassem um QI de 97 – bastante acima do QI médio dos Negros e quase igual à média dos Brancos (100) – aos dezassete anos já só registavam um QI de 89, enquanto que as crianças Brancas um QI de 106 e as crianças mestiças um QI de 99. Estes resultados, juntamente com os dados da performance académica, das classificações dentro das turmas e dos testes de aptidão, comprovaram o mesmo padrão – confira-se abaixo:

Fig. 5: Retirado de Raça, Evolução e Comportamento (3ª Ed.) (p. 187)

O conjunto de resultados obtidos no quadro conduziu os investigadores à seguinte conclusão: «os adoptados provenientes de ambos os pais Afro-Americanos revelaram um QI que não era especialmente superior aos das crianças Negras que cresceram em famílias Negras» (Scarr, S., 1983). Apesar de inseridos num ambiente mais favorável, as crianças Negras não demonstraram uma melhoria significativa face a crianças Negras criadas por pais Negros – recorde-se que um QI de 70 ou 80 apenas é frequente em Negros que vivam na África. Portanto, aquilo que este estudo de adopção trans-racial nos demonstra é que: i) crescer e desenvolver-se num ambiente familiar da classe média Branca, não faz baixar o QI médio dos Orientais, nem aumentar o QI dos Negros, embora se tenha denotado uma ligeira melhoria nos resultados obtidos pelas crianças ao longo do estudo; ii) os genes são, de facto, responsáveis, pelo menos em parte (50%) pelas diferenças de QI entre as raças – dada a incapacidade do ambiente/cultura de as modificar.

Este estudo, tal como outros, demonstra que as diferenças raciais são causadas pela acção simultânea dos genes e do ambiente, razão pela qual o factor genético não deve ser alvo de ataques abusivos, nem menorizado face ao ambiental – apesar das contestações provocadas por alguns deles – mas considerado um factor relevante e útil, na medida em que nos pode ajudar: i) a compreender melhor a complexidade e o funcionamento de cada raça: a descobrir as suas potencialidades, as suas forças, os seus anseios, as suas virtudes, as suas fraquezas, etc. para melhor lidar com elas; ii) a criar condições sociais mais equitativas em prol da diminuição das desigualdades, no sentido de melhorar a qualidade de vida dos indivíduos, ou seja, de possibilitar «a realização, para o maior número possível de homens e mulheres e pelo tempo mais longo possível, das condições de vida correspondentes à dignidade humana» (Vidal, M., 1993).

A IGUALDADE E AS SUAS IMPLICAÇÕES: DESIGUALDADE OU DIVERSIDADE RACIAL?

«Sempre afirmei: os homens são iguais. A única verdadeira distinção

é a diferença que pode existir entre eles»

Henri Monnier, 1828

O princípio de que os seres humanos são todos iguais faz hoje parte integrante da ortodoxia política e ética dominantes. Os pressupostos racistas que foram em tempos partilhados por grande parte dos europeus na viragem do século são, nos dias de hoje, totalmente inaceitáveis, pelo menos na vida pública. É absolutamente impensável agredir ou insultar um indivíduo devido à tonalidade de pele, fisionomia ou qualquer outra característica que se apresente desigual ao da maioria dos indivíduos da comunidade dominante: não só porque é anti-ético, mas porque é desprovido de sentido. Afinal, o que significa fazer parte da maioria? Será que fazer parte da maioria é fazer parte da normalidade? Então e se viajássemos para um país no qual todos os indivíduos tivessem apenas um olho: como nos sentiríamos? Provavelmente deficientes diante dos outros e com vontade de regressar para junto da ‘nossa tão familiar comunidade’ (com dois olhos), que julgávamos ser, até então, o padrão da normalidade. Entenda-se que não há civilizações normais e outras anormais e não é por correspondermos a um padrão que os outros são despropositados: o que existem são centenas de civilizações e de seres humanos diferentes, com características próprias e que devem ser respeitados na sua diversidade.

Mas apesar de a igualdade ser um princípio reconhecido e fomentado nas sociedades actuais, isto não quer dizer que os racistas tenham desaparecido completamente, mas que têm, simplesmente, de disfarçar o seu racismo se quiserem que a sua política e as suas ideias tenham alguma hipótese de aceitação geral. Por exemplo, um poeta não poderia agora escrever sobre «raças inferiores à margem da lei» e manter ou aumentar a sua reputação, como fez Rudyard Kipling em 1897. A própria África do Sul abandonou o apartheidvida separada»), uma palavra legalmente adoptada em 1948 para designar um regime segundo o qual os brancos detinham o poder e os povos restantes eram obrigados a viver separadamente, de acordo com regras que os impediam de ser verdadeiros cidadãos.

Actualmente, proferimos: todos diferentes, todos iguais, independentemente da raça ou do sexo; contudo, o que estamos exactamente a proclamar quando dizemos que os homens são todos iguais? Que não existem quaisquer diferenças entre o homem e mulher ou que os homens (provenientes ou não do mesmo grupo étnico) são exactamente ‘iguais’? Mas então, por que se passeiam alguns de Ferrari e outros de Ford? Por que conseguem alguns correr 100 metros em 10 segundos, enquanto outros necessitam de 15 ou 20? Como se justifica que alguns indivíduos se tornem grandes empresários, enquanto outros, talvez munidos por um espírito diferente, nunca criam novas estruturas na sociedade? Por que não andamos todos na faculdade? Os racistas, os sexistas, bem como outros adversários da igualdade, não têm deixado de assinalar que, qualquer que seja o critério escolhido, «não é pura e simplesmente verdade que todos os seres humanos sejam iguais (…) é um facto incontroverso de que os seres humanos diferem entre si e que essas diferenças se verificam em tantas características, que a busca de uma base factual sobre a qual se possa assentar o princípio da igualdade parece condenada ao fracasso.» (Singer, P., 2002). Tal como diz o ditado, cada um é como cada qual: uns são altos, outros baixos; uns bonitos, outros feios; uns têm olhos azuis, outros não; uns são excelentes jogadores de futebol, alguns grandes génios da música, outros excelentes empregados de mesa; uns preocupam-se com a vida, outros não. E poderíamos continuar com infinitas divergências. Os homens possuem, de facto, características diferentes entre si e quanto a isso, pouco ou nada podemos fazer – embora a ciência já possibilite operações plásticas extraordinárias, tais como mudar de sexo ou alterar o pigmento da pele (um dos excelentes exemplos da utilização desta potencialidade cientifica é Michael Jackson).

Quando questionamos os fundamentos do princípio de que todos os seres humanos são iguais e procuramos aplicar esse mesmo princípio a casos particulares, o consenso começa levemente a desaparecer. Um dos indícios deste fenómeno foi o furor registado quando A. Jensen e H. J. Eysenck, nos finais dos anos 60, declararam que as variações de inteligência entre diferentes raças se baseavam na genética. Num extenso artigo publicado na revista Harvard Education Review, em 1969, intitulado How Much Can We Boost IQ and Scholastic Achievement?, Arthur Jensen abordou, numa pequena secção, as causas prováveis do facto indiscutível de, em média, os afro-americanos não conseguirem resultados tão elevados como os restantes americanos nos testes canónicos de quociente de inteligência. Jensen resumiu as conclusões a que chegou, do seguinte modo: «Não temos mais do que diversas linhas de indícios, nenhuma das quais é isoladamente conclusiva, mas que, no seu conjunto fazem não ser de rejeitar a hipótese de os factores genéticos terem grande importância na diferença média de inteligência entre Brancos e Negros. A predominância dos indícios é, na minha opinião, menos consistente com uma hipótese estritamente ambiental do que com uma hipótese genética, que, note-se, não exclui a influência do ambiente ou da sua interacção com factores genéticos.» (Jenson, A., 1969).

Esta passagem, muito reservada, surgiu no meio de um estudo minucioso de uma questão científica complexa publicada numa revista académica. Deste modo, não surpreenderia se realmente tivesse passado despercebida à maioria do público, exceptuando, como é óbvio, os cientistas que trabalham na área da psicologia e/ou da genética. Contudo, por incrível que pareça, foi largamente citada na imprensa popular, numa tentativa desmesurada de defender o racismo com bases científicas. Jensen foi acusado de difundir propaganda racista e comparado a Hitler. Muitas das suas conferências foram boicotadas e os alunos que frequentavam a Universidade em que leccionava exigiram a sua imediata expulsão. H. J. Eysenck, Professor britânico de Psicologia conhecido como um grande entusiasta e apoiante das teorias de Jensen, recebeu um tratamento semelhante ao do seu colega na Grã-Bretanha, na Austrália e nos EUA. É importante notar que o argumento de Jensen não declara que as pessoas de origem europeia registam a inteligência média mais elevada entre os Americanos: «a sua secção procurou assinalar alguns indícios de que são os americanos de ascendência japonesa e chinesa que registam os melhores resultados nos testes de raciocínio abstracto (embora sejam oriundos de estratos com um nível socioeconómico mais baixo), do que os americanos de ascendência europeia» (Singer, P., 2002).

As contestações à utilização de explicações genéticas para justificar a alegada diferença de inteligência entre as diversas raças é, apenas, uma mera manifestação no interior de uma oposição bem mais geral e típica às explicações genéticas em outras áreas sociais particularmente sensíveis, como, por exemplo, a velha questão social da diferença entre os sexos. Largos foram os anos em que a mulher foi descriminada pelo homem e se alegava a existência de factores biológicos por detrás do domínio masculino. Felizmente, o movimento feminista alterou esta visão monopolizadora (machista) ao reivindicar a igualdade de direitos entre os sexos e reconhecendo que, embora as diferenças biológicas tenham a sua dose de influência – por exemplo, o homem possui, normalmente, um comportamento mais agressivo, enquanto a mulher apresenta, maioritariamente, um comportamento mais afectuoso – isso não é justificação para a prática de descriminação. Hoje, a igualdade entre o Homem e Mulher é trivial – muitos dos jovens já nasceram envolvidos numa sociedade igualitária – porém, nem sempre foi assim. A integração da mulher na população activa e o seu acesso ao estatuto de cidadã em termos iguais aos dos homens é um dos mais importantes traços da nova sociedade. No passado, as mulheres tinham menos direitos que os homens: salvo raras excepções, não detinham direito de voto; sem a autorização dos maridos não podiam sequer possuir passaporte, não podiam sair do país, não podiam ter conta bancária, assinar contratos comerciais, alugar casa e abrir empresas; o adultério masculino era tolerado, mas o adultério feminino era legalmente punido. Presentemente, as mulheres representam cerca de 50% da população activa em toda a Europa e são maioritárias nas escolas, nas universidades, na Administração Pública, nos serviços e na saúde. Cerca de dois terços dos diplomas de ensino superior obtidos anualmente em Portugal vão para as mulheres. As mulheres têm agora acesso a todas as profissões (podem ser empresárias, juízas, diplomatas, etc.).

A mentalidade mudou: a igualdade entre os homens e as mulheres está, nos dias de hoje, assegurada na lei. Isto significa que apesar de existirem diferenças genéticas entre o homem e a mulher, quer na fisionomia, como no comportamento, a humanidade «aprendeu» a jogar com as vantagens/desvantagens dessas divergências e, sobretudo, a reconhecer que a igualdade de interesses e oportunidades que cada ser humano detém na sociedade são totalmente independentes do sexo. O desafio que se coloca é, então, o seguinte: será possível defender a igualdade racial ao mesmo tempo que se acentua a diversidade genética entre as raças? Sim, desde que consideremos a igualdade na consideração de interesses e estejamos conscientes da proficuidade do conhecimento dessas diferenças para a melhoria da qualidade de vida social do ser humano.

A generalizada oposição às explicações genéticas também possui ligações óbvias com a intensidade dos sentimentos suscitados pelas abordagens sociobiológicas no estudo do comportamento humano. Neste caso, a preocupação é a de que, se o comportamento social humano for encarado como decorrente de outros mamíferos sociais, poderemos ser levados a pensar que fenómenos como a hierarquia, o domínio masculino e a desigualdade fazem parte da evolução da natureza e são imutáveis. Recentemente, o desenvolvimento do Projecto Científico Internacional destinado a traçar o Mapa do Genoma Humano (1990) – i. e. a fornecer uma descrição científica e minuciosa do potencial genético humano – projectado para durar 15 anos, provocou enormes protestos, sobretudo, devido à apreensão sobre aquilo que um tal mapa possa revelar quanto às diferenças genéticas entre seres humanos e que tipo de utilização poderá ser feita com tais informações.

Não é da nossa competência avaliar os méritos científicos das explicações biológicas do comportamento humano em geral ou, então, das diferenças raciais em particular entre as raças, mas as implicações que podem ter essas teorias na sociedade, sobretudo, relativamente ao ideal de igualdade. Note-se que para fazer tal reflexão não é preciso determinar se essas teorias estão ou não correctas, ou se são sólidas, basta centrarmo-nos no seguinte problema: existem vários estudos que demonstram a existência de diferenças de QI entre grupos étnicos e que tal diferença se deve, em parte, a factores genéticos (Herrnstein & Murray’s, 1994; Jensen, 1998;Rusthon, J. P., 2000; Lynn & Vanhanen’s, 2002); suponhamos que tais estudos estão efectivamente correctos e que são socialmente aceites, significaria isso que os poderíamos utilizar para defender cientificamente a desigualdade e colocar em causa a nossa perspectiva acerca da igualdade racial?

Na verdade, seria lamentável que o nosso cepticismo acerca destas questões nos levasse a negligenciá-las e que mais tarde se, porventura, tais teorias fossem apresentadas publicamente como ideais, pudessem – ao encontrar um público confuso e pouco preparado para lidar com elas – ter implicações para o ideal da igualdade, quando na verdade não têm. Neste sentido, começaremos por esclarecer: i) de que falamos quando falamos em ‘diferença no quociente de inteligência médio entre diferentes grupos étnicos’ – que estudos/teorias estão em causa? ii) porque são umas pessoas mais «inteligentes» do que outras: que factores (genéticos ou ambientais) são responsáveis, pelo menos em parte, por essa diferença.

FAZ SENTIDO DEFENDER A DIVERSIDADE GENÉTICA?

NATURE (INATO) VS. NURTURE (ADQUIRIDO): RAÇA, QI E GENÉTICA

IGUALDADE E DIVERSIDADE

PONTES, J.

INTRODUÇÃO: FAZ SENTIDO DEFENDER A DIVERSIDADE GENÉTICA?

«O bosque seria muito triste se só cantassem os pássaros que cantam melhor.»

Rabindranath Tagore, s/n

O debate do inato vs adquirido tem sido ubíquo na história das ciências do comportamento, sendo que as abordagens das ciências sociais e das ciências biológicas ao estudo do comportamento têm sido quase mutuamente exclusivas. Todavia, um número crescente de trabalhos, sobretudo na área de psicologia e neurologia, têm vindo a documentar o efeito primordial de factores genéticos (face a ambientais) na demarcação da raça, personalidade, comportamento e QI (quociente de inteligência). Tais resultados sugerem que os efeitos de factores sociais na expressão do comportamento e da personalidade devem ter como base processos biológicos, i. e. explicações genéticas. Os estudos de adopção trans-racial (em que crianças de uma determinada raça são adoptados e educados por pais de outra raça), os estudos sobre a regressão para o nível médio (que compara pais e irmãos de grupos raciais diferentes) e os estudos sobre a influência da depressão consanguínea (que estudam os filhos de pais aparentados entre si por laços de sangue) fornecem a prova de que os genes são responsáveis pelas diferenças entre as raças, em termos de QI, personalidade, atitudes e outros comportamentos, nos quais desempenham um papel determinante. Na sua maioria, estes estudos convergem na ideia segundo a qual «the Brain size matters» (Rushton, J. P., & Ankney, C. D., 1996), ou seja, a dimensão do cérebro faz toda a diferença, pois as divergências nas capacidades cognitivas estão directamente correlacionadas com as diferenças de dimensão do cérebro, a idade, o sexo, a classe social e a raça (Rusthon, J. P., & Ankney, C. D., 1996; Penke, Denissen, Miller, 2007).

Encontra-se perfeitamente estabelecido, pelas ciências do comportamento, que de que existe uma grande variabilidade dentro de cada grupo racial, bem como notórias diferenças médias na dimensão do cérebro e na capacidade cognitiva (QI) entre as raças (Lynn, R., & Vanhanen, 2002; Jensen & Rusthon, 1988). Aliás, existe um consenso ético universal de que nós tratamos as pessoas como indivíduos. No entanto, certos grupos de opinião muito activos nos meios académicos e de comunicação social proíbem, pura e simplesmente o público de participar numa discussão franca sobre o assunto. Para muitos, é inquietante que o facto de se mencionar que as raças diferem possa levar à criação de estereótipos e limitar a igualdade na consideração de interesses e oportunidades.

Um dos desafios que se coloca é o seguinte: ‘Suponhamos que se revela que um determinado grupo étnico (raça X) tem um QI médio superior ao de outro (raça y) e que esta diferença se deve, em parte, a factores genéticos. Asserção: x é geneticamente superior em QI a y.’ Será isto racismo defensável? Teremos, por isso, que rejeitar o princípio da igualdade? Ou será apenas a prova científica do quanto rico e diversificado o potencial genético humano é, e a sua importância na consideração da igualdade de interesses?

Alguns comentadores lidam com a natureza provocatória destas pesquisas (Helfrich:’provocate paper’; B. Spinath: ‘explosive potential’), mas serão este género de investigações especialmente provocantes ou, pelo contrário, importantes pesquisas sociais e culturais, provocativas devido ao impacto que provocam nos ‘interesses’ e filosofias de vida? Outros autores levantaram questões acerca das consequências étnicas e políticas da investigação da inteligência a nível nacional (Allik, Asendorpf, F. Spinath), tais como: qual é o valor científico de mapas-mundo (mapas mundi) com as diferenças de QI? Qual é o objectivo de figuras a ilustrarem as correlações negativas entre as capacidades cognitivas a nível nacional?

Antes de existirem quaisquer testes de inteligência e comportamento, filósofos (Aristóteles, Voltaire, D. Hume), investigadores (Broca, Darwin, Galton), assim como todos os fundadores da teoria da evolução e antropologia acreditavam na existência de uma ligação entre raça, inteligência e realizações culturais. Até Freud acreditava que existiam diferenças raciais até certo ponto. Hoje, um vasto conjunto de investigações científicas comprova aquilo em que anteriormente apenas podíamos acreditar: a raça é, efectivamente, «mais do que uma questão de pele» (Rushton, J. P., 2000), é uma realidade biológica com implicações na ciência e na vida quotidiana social (Herrnstein & Murray, 1994; Jensen, A. R., 1998; Lynn, R., & Mikk, J., 2007); por isso, qualquer investigação que envolva estudos comparativos entre raças não deve, em momento algum, ser menosprezada.

Este artigo pretende esclarecer que o reconhecimento da diferença racial e das discrepâncias a ela coligadas não é fruto de racismo, xenofobia ou de uma qualquer tentativa de menorizar a igualdade inerente a cada ser humano, mas de um elucidado reconhecimento da existência de diversidade/pluralidade genética – uma das maiores riquezas da humanidade. Tendo como base uma quantidade razoável de estudos acerca das diferenças raciais, acredito ser possível defender a diversidade genética, sem agredir ética e psicologicamente a sociedade e que a abolição da utilização do termo «raça» não tem quaisquer repercussões nos defensores do racismo – pelo contrário. O reconhecimento da diversidade racial abre a possibilidade de aprofundar o estudo da raça na sua completude, i. e. de conhecermos melhor quais são os seus anseios, virtudes, fraquezas, forças, etc., que nos permitirão responder de forma mais eficaz às suas carências, pois só quando considerarmos os genes e o ambiente em conjunto é que estaremos aptos a compreender a complexidade dos problemas humanos, e é só com esse conhecimento que a sociedade poderá tentar resolvê-los. O primeiro passo implica, assim, honestidade intelectual acerca das raças, da sua evolução e comportamento (desprovidos de ‘tabus’) para podermos progredir no sentido de uma sociedade mais esclarecida, humanizante e preparada para superar as adversidades na diversidade.

ATÉ ONDE VAI A INFLUÊNCIA GENÉTICA?

«Nature is all that a man brings with himself into the world; nurture is every influence that affects him after his birth.  The distinction is clear: the one produces the infant such as it actually is, including its latent faculties of growth and mind: the other affords the environment amid which the growth takes place, by which natural tendencies may be strengthened or thwarted or wholly new ones implanted».

(Galton, 1874)

Um dos fenómenos mais estudados e também mais complexos da biologia (estudo de organismos vivos) e da psicologia (estudo da mente) é o de saber como é que as pessoas se desenvolvem mentalmente, i. e. que factores contribuem para o desenvolvimento mental do indivíduo: a natureza (i. e. a composição biológica ou genética de uma pessoa) ou o ambiente (como é que uma pessoa é criada, por quem e onde)? Como é que os indivíduos desenvolvem a capacidade para a aprendizagem, a memória, a inteligência, e a personalidade? Por que é que dois ou os mais indivíduos, nascidos e criados pelos mesmos pais (e, consequentemente, detentores, de uma composição genética similar) se transformam, frequentemente, em indivíduos com acentuadas diferenças de gosto, forças e fraquezas? Por que é que algumas pessoas, contrariamente ao seu irmão e/ou irmã, desenvolvem doenças mentais? O que está na causa de tais diferenças, i. e. o que pesa mais no pêndulo: a genética ou o ambiente?

Tal como a maioria dos estudos que pertencem à mente, neste também não existem muitas respostas liminares. Os cientistas e investigadores do campo mental desenvolvem teorias muito diferentes a respeito de como as pessoas crescem e se desenvolvem mentalmente.

Uma grande parte dos investigadores acredita que o ambiente/cultura em que uma pessoa é criada contribui para a formação integral da sua personalidade e inteligência, podendo mesmo promover ou impedir o desenvolvimento de determinadas doenças físicas ou mentais (Ridley, Watson, Tolman, Skinner): «A mãe natureza não impediu claramente a determinação das nossas capacidades intelectuais para cegar o destino de um gene ou genes; Ela deu-nos pais, aprendizagem, linguagem, cultura e instrução para nos podermos programar» (Ridley, M., 1999); uma outra parte (bem menor) sustenta que a biologia joga um papel mais importante que o ambiente e que as pessoas estão geneticamente programadas para se tornarem naquilo que são, por isso, coisas como alcoolismo ou mesmo a inteligência são biologicamente herdados, pois nada no ambiente poderá modificá-las de forma radical (Jensen, Lynn, Rushton, Weinberg).

No entanto, embora o zeitgeist (espírito da época) do mundo da psicologia ocidental considere que ambos os factores (genético e ambiental) contribuem de modo idêntico (50%-50%) para o desenvolvimento mental do indivíduo – influenciando de modo «interacionista» (Ridley, M., 2002) – muitos estudos mostram que os gémeos (sejam eles de que tipo forem) detêm maior probabilidade de possuírem uma inteligência similar (Bouchard Jr, T. J., 1990). Aliás, quanto mais próxima é a ligação biológica, mais forte é a similitude na inteligência. Todavia, existem também algumas similitudes na inteligência entre crianças que não possuem qualquer relação de parentesco (i. e. não são irmãos ou gémeos), mas foram criadas conjuntamente na mesma casa, contudo, este género de similitudes não são tão elevadas quanto as que se encontram entre os irmãos e, em especial, os gémeos. Em geral, o que estes estudos nos indicam é que não existe um único factor definitivo que influencie directamente e de forma única a inteligência: quer a «herança genética», como o modo e local em que o indivíduo é criado exercem extrema influência. Isto, porque a inteligência não se encontra 100% determinada pela genética, logo, qualquer que seja a inteligência natural de um indivíduo (mesmo considerando que se encontra maioritariamente determinada pela genética), ela poderá ser melhorada ou obstruída (nem que seja numa percentagem minoritária) pelo ambiente (moral, político, ético, educacional, ético, social, etc.), em que o indivíduo se desenvolve.

Assim, o problema aqui em disputa não é o de saber se a genética determina em 100% o desenvolvimento do indivíduo, ou se a genética pode ser utilizada como factor isolado na comparação de grupos étnicos (entenda-se que este problema está claramente ultrapassado), mas o de saber até que ponto estamos geneticamente determinados, ou seja, qual é percentagem de influência dos factores biológicos no nosso desenvolvimento: será 30%, 50% ou 80%, como afirmou o psicólogo americano Arthur Jensen na década de 60? Acaso a genética desempenhe o papel mais determinante, será isso razão suficiente para defender o racismo?

“Testing for Racial Differences in the Mental Ability of Young Children” – Roland G. Fryer, Jr. e Steven D. Levitt

Em testes de inteligência, os Negros pontuam sistematicamente pior do que os Brancos. Há quem argumente que as diferenças genéticas entre raças expliquem a diferença. O artigo utiliza dados provindos de estudos a nível nacional, e descobre diferenças raciais menores nos resultados dos testes (0.06 de desvio)  entre Negros e Brancos que desaparece com a inclusão de um conjunto limitado de controladores.

Diferenças raciais largas foram encontradas em resultados de testes em crianças com 2 anos de idade e diferenças raciais completas observadas mais tarde na vida presente aos 3 anos. Mesmo depois de ter em conta factores demográficos e sócio-económicos tais como salário parental, educação, profissão, ambiente familiar, peso de nascença, região e urbanicidade, permanece mesmo assim uma diferença racial substancial nos resultados do teste Branco-Negro. Os Asiáticos tendem a ter resultados médios sistematicamente mais elevados do que as outras raças.

Alguns estudiosos argumentam que a combinação da alta hereditariedade da inteligência e as diferenças raciais persistentes nos resultados dos testes são prova das diferenças genéticas entre as raças.

Os factores ambientais comportam um papel pequeno em idades iniciais, e a presença duma diferença racial inicial em resultados de testes pode impulsionar o argumento a favor da base genética para as diferenças raciais.

Os dados em bruto dos Negros são indistinguíveis dos Hispânicos e Asiáticos, que também têm ligeiramente piores resultados do que os Brancos. Pelos 2 anos de idade, os Brancos, em média, têm melhores resultados do que crianças de outras raças por 0.3-0.4 de desvio de dados em bruto, e 0.2-0.3 de desvio com a inclusão de controladores extensivos.

Quando se calibra os resultados para um modelo simples em que os resultados são afectados por genes e pelo ambiente, a caracterização que melhor se adapta aos dados observados é um em que há pequenas diferenças raciais médias na inteligência, e os factores ambientais tornam-se importantes determinadores dos resultados dos testes tais como a idade das crianças, havendo também uma maior diferença média racial no ambiente.

O aparecimento tardio das diferenças raciais nos testes é também consistente com a existência de uma interacção genético-ambiental. No modelo de Dickens e Flynn, uma curva de feedback positivo existe entre genes e ambiente, que ao longo do tempo serve para aumentar a pequena diferença inicial quando as circunstâncias genéticas e ambientais estão positivamente correlacionadas.