Monthly Archives: Março 2008

ATÉ ONDE VAI A INFLUÊNCIA GENÉTICA?

«Nature is all that a man brings with himself into the world; nurture is every influence that affects him after his birth.  The distinction is clear: the one produces the infant such as it actually is, including its latent faculties of growth and mind: the other affords the environment amid which the growth takes place, by which natural tendencies may be strengthened or thwarted or wholly new ones implanted».

(Galton, 1874)

Um dos fenómenos mais estudados e também mais complexos da biologia (estudo de organismos vivos) e da psicologia (estudo da mente) é o de saber como é que as pessoas se desenvolvem mentalmente, i. e. que factores contribuem para o desenvolvimento mental do indivíduo: a natureza (i. e. a composição biológica ou genética de uma pessoa) ou o ambiente (como é que uma pessoa é criada, por quem e onde)? Como é que os indivíduos desenvolvem a capacidade para a aprendizagem, a memória, a inteligência, e a personalidade? Por que é que dois ou os mais indivíduos, nascidos e criados pelos mesmos pais (e, consequentemente, detentores, de uma composição genética similar) se transformam, frequentemente, em indivíduos com acentuadas diferenças de gosto, forças e fraquezas? Por que é que algumas pessoas, contrariamente ao seu irmão e/ou irmã, desenvolvem doenças mentais? O que está na causa de tais diferenças, i. e. o que pesa mais no pêndulo: a genética ou o ambiente?

Tal como a maioria dos estudos que pertencem à mente, neste também não existem muitas respostas liminares. Os cientistas e investigadores do campo mental desenvolvem teorias muito diferentes a respeito de como as pessoas crescem e se desenvolvem mentalmente.

Uma grande parte dos investigadores acredita que o ambiente/cultura em que uma pessoa é criada contribui para a formação integral da sua personalidade e inteligência, podendo mesmo promover ou impedir o desenvolvimento de determinadas doenças físicas ou mentais (Ridley, Watson, Tolman, Skinner): «A mãe natureza não impediu claramente a determinação das nossas capacidades intelectuais para cegar o destino de um gene ou genes; Ela deu-nos pais, aprendizagem, linguagem, cultura e instrução para nos podermos programar» (Ridley, M., 1999); uma outra parte (bem menor) sustenta que a biologia joga um papel mais importante que o ambiente e que as pessoas estão geneticamente programadas para se tornarem naquilo que são, por isso, coisas como alcoolismo ou mesmo a inteligência são biologicamente herdados, pois nada no ambiente poderá modificá-las de forma radical (Jensen, Lynn, Rushton, Weinberg).

No entanto, embora o zeitgeist (espírito da época) do mundo da psicologia ocidental considere que ambos os factores (genético e ambiental) contribuem de modo idêntico (50%-50%) para o desenvolvimento mental do indivíduo – influenciando de modo «interacionista» (Ridley, M., 2002) – muitos estudos mostram que os gémeos (sejam eles de que tipo forem) detêm maior probabilidade de possuírem uma inteligência similar (Bouchard Jr, T. J., 1990). Aliás, quanto mais próxima é a ligação biológica, mais forte é a similitude na inteligência. Todavia, existem também algumas similitudes na inteligência entre crianças que não possuem qualquer relação de parentesco (i. e. não são irmãos ou gémeos), mas foram criadas conjuntamente na mesma casa, contudo, este género de similitudes não são tão elevadas quanto as que se encontram entre os irmãos e, em especial, os gémeos. Em geral, o que estes estudos nos indicam é que não existe um único factor definitivo que influencie directamente e de forma única a inteligência: quer a «herança genética», como o modo e local em que o indivíduo é criado exercem extrema influência. Isto, porque a inteligência não se encontra 100% determinada pela genética, logo, qualquer que seja a inteligência natural de um indivíduo (mesmo considerando que se encontra maioritariamente determinada pela genética), ela poderá ser melhorada ou obstruída (nem que seja numa percentagem minoritária) pelo ambiente (moral, político, ético, educacional, ético, social, etc.), em que o indivíduo se desenvolve.

Assim, o problema aqui em disputa não é o de saber se a genética determina em 100% o desenvolvimento do indivíduo, ou se a genética pode ser utilizada como factor isolado na comparação de grupos étnicos (entenda-se que este problema está claramente ultrapassado), mas o de saber até que ponto estamos geneticamente determinados, ou seja, qual é percentagem de influência dos factores biológicos no nosso desenvolvimento: será 30%, 50% ou 80%, como afirmou o psicólogo americano Arthur Jensen na década de 60? Acaso a genética desempenhe o papel mais determinante, será isso razão suficiente para defender o racismo?

“Testing for Racial Differences in the Mental Ability of Young Children” – Roland G. Fryer, Jr. e Steven D. Levitt

Em testes de inteligência, os Negros pontuam sistematicamente pior do que os Brancos. Há quem argumente que as diferenças genéticas entre raças expliquem a diferença. O artigo utiliza dados provindos de estudos a nível nacional, e descobre diferenças raciais menores nos resultados dos testes (0.06 de desvio)  entre Negros e Brancos que desaparece com a inclusão de um conjunto limitado de controladores.

Diferenças raciais largas foram encontradas em resultados de testes em crianças com 2 anos de idade e diferenças raciais completas observadas mais tarde na vida presente aos 3 anos. Mesmo depois de ter em conta factores demográficos e sócio-económicos tais como salário parental, educação, profissão, ambiente familiar, peso de nascença, região e urbanicidade, permanece mesmo assim uma diferença racial substancial nos resultados do teste Branco-Negro. Os Asiáticos tendem a ter resultados médios sistematicamente mais elevados do que as outras raças.

Alguns estudiosos argumentam que a combinação da alta hereditariedade da inteligência e as diferenças raciais persistentes nos resultados dos testes são prova das diferenças genéticas entre as raças.

Os factores ambientais comportam um papel pequeno em idades iniciais, e a presença duma diferença racial inicial em resultados de testes pode impulsionar o argumento a favor da base genética para as diferenças raciais.

Os dados em bruto dos Negros são indistinguíveis dos Hispânicos e Asiáticos, que também têm ligeiramente piores resultados do que os Brancos. Pelos 2 anos de idade, os Brancos, em média, têm melhores resultados do que crianças de outras raças por 0.3-0.4 de desvio de dados em bruto, e 0.2-0.3 de desvio com a inclusão de controladores extensivos.

Quando se calibra os resultados para um modelo simples em que os resultados são afectados por genes e pelo ambiente, a caracterização que melhor se adapta aos dados observados é um em que há pequenas diferenças raciais médias na inteligência, e os factores ambientais tornam-se importantes determinadores dos resultados dos testes tais como a idade das crianças, havendo também uma maior diferença média racial no ambiente.

O aparecimento tardio das diferenças raciais nos testes é também consistente com a existência de uma interacção genético-ambiental. No modelo de Dickens e Flynn, uma curva de feedback positivo existe entre genes e ambiente, que ao longo do tempo serve para aumentar a pequena diferença inicial quando as circunstâncias genéticas e ambientais estão positivamente correlacionadas.