Estado da Arte

“Race is seen as a real Guide to track Disease.”

New York Times, 2002

Ao longo dos últimos trinta e cinco anos teve lugar uma importante mudança na nossa compreensão biológica do conceito de “raça” humana devido ao aumento do nosso conhecimento em genética. A publicação da sequenciação quase completa do genoma humano em 2001, criou condições para se compreender melhor a origem de doenças hereditárias graves (Sequeiros, 2001), reavivando a procura de diferenças biológicas para a categorização racial, sobretudo, o uso da tecnologia genética para examinar as diferenças “raciais” em resultados tão complexos como a saúde e a inteligência, reafirmando a articulação entre “raça” e “genes”.

Em recentes publicações, comunidades de geneticistas argumentam que o genoma contém a chave para as diferenças biológicas significativas em medicina entre populações humanas raciais e étnicas, razão pela qual, a variação genética humana entre populações é cada vez mais objecto de interesse biomédico (Koening, Lee, Richardson, 2008). Mas a “raça” na era pós-genómica levanta novas e desafiantes preocupações científicas, epistemológicas, éticas e políticas devidas, essencialmente, à sua implementação no mercado livre, ao enorme incentivo financeiro em investigação académica ligada à “raça”, à possibilidade de aceder a testes genéticos ancestrais à associação de “genes” a mecanismos biológicos, como a inteligência e à conquista de um lugar firme no campo médico. Enquanto os antropólogos do século passado acreditavam que era possível estabelecer, através de medidas antropomórficas, os limites entre as “raças”, hoje, alguns geneticistas e biomédicos procuram “marcadores genéticos” entre grupos “raciais”, levantando preocupações de que estas variações biológicas possam ser utilizadas para justificar os resultados injustos que são criados pelo ambiente social e pelas forças económicas. Embora a identificação de “marcadores genéticos” possa ser útil para a investigação diagnóstica de doenças genéticas, estas pesquisas podem conduzir a um violento abuso. Num recente paper publicado no New York Times, Dr. Armand Leroi (2005) argumenta que recentes investigações na área das ciências biológicas oferecem novas evidências de que as diferenças genéticas são geneticamente identificáveis, incentivando os investigadores a estudarem as relações entre “raça” e “genes”. Paralelamente, críticos da classificação racial asseveram que a “raça” é uma ilusão, uma “construção cultural, social e mental” («folk-cultural concept») que não pode evidenciar condições médicas (Sternberg, Grigorenko, & Kidd, 2005) – e que enquanto a ciência médica continuar com estas crenças “raciais populares arcaicas”, as suas revindicações de estatuto objectivo/desinteressado no campo da saúde estão seriamente comprometidos (Hahn & Gaines, 1992), pois o uso de categoria racial na prática biomédica fornece bases científicas para a manutenção da ideologia racial popular e científica, contribuindo para os problemas sociais causados pelo racismo (Good, 1993).

Face aos recentes desenvolvimentos, filósofos das ciências avançaram com trabalhos focados na construção e uso contemporâneo do conceito de “gene”, “doença” e “saúde”; mas a questão da “raça” é complexa, muitos dos factos só recentemente se tornaram disponíveis e a maior questão de todas – saber se a “raça” é mais uma reflexão da natureza, do que da cultura – permanece sem resposta.

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