Parte I

PARTE I –  A questão da “raça” na ciência:

a) Qual é o objectivo e de que forma responde às actuais necessidades?

Se a investigação filosófica em biologia e medicina tem vindo a desenvolver-se exponencialmente em diferentes países, existindo já vários centros de investigação focados nas implicações sociais e conceptuais da ciência genómica, o caso português constitui uma lacuna. Mas se a filosofia das ciências pode trazer um “acréscimo de racionalidade”, vantajoso para o meio científico e para a cultura nacional geral em matéria de conhecimento biológico, exercê-la presentemente em domínios tão importantes como em investigações genéticas ligadas à “raça”, parece ser um dever daqueles que se interessam pelas controvérsias científicas, especialmente, pelo esclarecimento de uma das questões mais complexas e violentas da história humana: o que é, afinal, a “raça”? A “raça” é uma categorização útil para descrever a variação biológica humana? Se nunca existiu nenhuma evidência empírica para a diferenciação da humanidade em grupos raciais distintos (Montagu), sob que véu de “neutralidade” (e significação) aparece no contexto científico? (“Why? When? How?”)

Numa sociedade em que “não somos mais do que células”, a delimitação das “raças” é, talvez, o santo graal da genética, pois a sua descoberta permitirá o domínio absoluto da humanidade. Não esquecendo a importância do distanciamento do “olhar” do filósofo para a correcta reflexão sobre a conceptualização resultante da prática científica, pretende-se responder à actual necessidade de “re-conceptualizar” a “raça” mediante uma pesquisa multidisciplinar que implicará a investigação daqueles que examinam as implicações da ciência genómica hodierna (IBMC).

b) Por que razão a “raça” nos interessa?

É preciso evidenciar que o estudo da raça é um dos casos que ilustra como quando se trata de “temas que nos interessam” (Dupré): não é só uma questão científica, mas epistemológica, ética e metafísica. Do ponto de vista epistemológico é necessário mostrar que mesmo a ciência envolve aspectos normativos, para lá de descritivos – dicotomia informação-conhecimento (explicação operacional/simbólica); “full device” ideológico (B. Cyrulnik); fazê-lo a partir de um enquadramento que cruze aproximações de tipo internalista e externalista: dimensões epistémicas (conceitos, esquemas de pensamento, metodologias, sistemas experimentais…); institucionais (“culturas epistémicas”, concepções sobre o lugar da investigação em biologia molecular no quadro das ciências e da cultura em geral, relações com ética, dimensões sócio-políticas…) e; antropológicas (os cientistas, seus objectivos, relações, o investigador como ser humano concreto e não “sujeito epistémico”).

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